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A cozinha afetiva de R$ 400 mil de Cláudia Vasconcelos

Aos 71 anos, Cláudia Vasconcellos prova que empreender não tem idade — e que a aposentadoria pode ser o início de um projeto ainda maior. Depois de décadas atuando como executiva nos setores bancário e elétrico, ela decidiu ressignificar a própria trajetória. Trocou planilhas por panelas, reuniões por receitas, e abriu caminho para um dos negócios gastronômicos mais sustentáveis de Cuiabá (MT): duas unidades do Goiabeiras Gourmet, que hoje faturam, juntas, cerca de R$ 400 mil por mês.

A virada começou com um investimento de R$ 150 mil, usado para inaugurar o primeiro restaurante. A cozinha de Cláudia sempre foi um ponto de encontro na vida pessoal, e ela queria levar esse afeto para o público — mas com um propósito claro: oferecer comida caseira, saborosa, e alinhada à sustentabilidade. “Eu queria um lugar em que a comida tivesse alma, mas também responsabilidade ambiental”, conta.

O resultado é um buffet que funciona quase como uma coreografia culinária: cada cozinheiro com seu papel, cada prato entrando no ritmo certo. O cardápio abraça a comfort food, variando conforme o dia da semana — rabada às quartas, feijoada aos sábados, e uma mistura calorosa entre a culinária mineira e cuiabana às quintas.

Mas foi nos bastidores que Cláudia se destacou. A experiência técnica do setor elétrico virou diferencial competitivo. O restaurante nasceu já com lâmpadas de LED, rotina de separação de resíduos e um sistema de reciclagem do óleo de cozinha para produção de biodiesel.

Com o tempo, o negócio ganhou parceiros. Uma cooperativa local recolhe plástico e alumínio duas vezes por semana, garantindo renda para 16 famílias. “Aquilo que poderia ser lixo vira sustento. É uma corrente que beneficia muita gente”, explica a empresária.

Em 2023, veio o passo mais ousado: Cláudia investiu R$ 780 mil em uma usina solar com 285 placas fotovoltaicas, instalada em um terreno da família no interior do Mato Grosso. A estrutura abastece integralmente os dois restaurantes e gera uma economia anual de R$ 223 mil. O valor economizado é reinvestido na própria usina, criando um ciclo de autonomia energética.

A busca por eficiência não parou aí. Nos fundos do restaurante, funciona um biodigestor — apelidado pelos funcionários de “dragão” — que transforma restos orgânicos em biogás. O combustível produzido abastece parte da cozinha, sendo usado no preparo do café, recheios de quiches e sobremesas. Uma solução limpa, barata e criativa para um dos maiores desafios do setor alimentício: o desperdício.

O crescimento também tem apoio do Sebrae-MT, parceiro de Cláudia desde 2014, ainda na época da Copa do Mundo. A empresária passou a aplicar metodologias de gestão, boas práticas e treinamentos constantes com a equipe, que conta com nutricionista e segue padrões rígidos de segurança alimentar.

Hoje, Cláudia integra o Food Experience, programa que reúne 15 empreendedores da alimentação para compartilhar experiências e desenvolver novas estratégias. E os resultados aparecem tanto no caixa quanto na imagem da marca. Seus restaurantes já receberam selos de eficiência energética e de baixa emissão de carbono — reconhecimento que reforça o impacto ambiental positivo e fortalece a empresa diante dos clientes.

Para Cláudia, sustentabilidade não é só um diferencial competitivo: é a essência do negócio. “Usar energia de forma inteligente reduz custos e protege o planeta. É bom para o negócio e para todos nós”, resume.

A jornada da ex-bancária mostra que inovação também nasce da maturidade — e que, quando tradição, gestão e responsabilidade ambiental entram na mesma panela, o resultado pode ser um negócio de sabor duradouro.

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