A escalada até o topo do mundo corporativo no Brasil guarda uma contradição intrigante. Mulheres e homens levam rigorosamente o mesmo tempo para atingir o ápice da carreira profissional — uma média de 18 anos de estrada passando por dez posições diferentes. No entanto, quando as portas da sala da presidência se abrem, a fotografia do poder revela um cenário quase exclusivamente masculino: apenas 5,2% dos CEOs no país são mulheres.
Os dados, revelados em julho de 2026 pelo instituto de pesquisa Evermonte, mostram que, de um universo de 2.153 companhias brasileiras analisadas, míseras 112 têm lideranças femininas no comando. Para romper esse teto de vidro, o pedágio cobrado das executivas é muito mais alto: elas precisam colecionar uma média de três MBAs ou pós-graduações no currículo, enquanto os homens na mesma cadeira precisam de pouco mais de um diploma.
O “Breaking Point”: o grande funil da média gerência
A pesquisa indica que o verdadeiro sumidouro de talentos femininos não está na base, mas em uma etapa intermediária muito específica: a transição entre a gerência e a diretoria. É o chamado breaking point (ponto de ruptura), fase que costuma coincidir com a maternidade e o aumento das responsabilidades familiares.
O Funil de Liderança Feminina nas Empresas
├── Base Comercial ──> Equilíbrio ou maioria feminina na força de trabalho
├── Média Gerência ──> O Gargalo (Fase de maternidade e desaceleração forçada)
└── C-Level (CEOs) ──> Apenas 5,2% das cadeiras ocupadas por mulheres
Para Flavia Bittencourt, diretora geral da Adidas para a América Latina, é exatamente nesse gargalo que as empresas falham em reter suas futuras líderes. No seu caso, a maternidade veio cedo, logo após a faculdade. “Aquelas dúvidas tradicionais sobre escolher entre o filho ou a carreira não existiram comigo. O filho eu já tinha; a grande questão era descobrir se o mercado me deixaria ter uma carreira”, relata a executiva.
A estatística é implacável: sem uma base robusta de diretoras, o número de presidentes nunca vai crescer. O mercado precisa nutrir a ambição de liderança desde o início da jornada.
Onde elas mandam (e o bônus financeiro que trazem)
Geograficamente, a liderança feminina acompanha o eixo econômico brasileiro, com o estado de São Paulo concentrando mais da metade (51,4%) das CEOs. Setorialmente, as mulheres encontram mais espaço em bens de consumo (17,1%), saúde (9%) e serviços (8,1%). Em setores industriais pesados, como papel e celulose, a participação despenca para menos de 1%.
Manter as mulheres fora da tomada de decisões é, inclusive, um péssimo negócio financeiro para as corporações. Dados globais da consultoria McKinsey revelam que empresas que apostam na diversidade de gênero no topo superam seus concorrentes diretos em até 25% em rentabilidade.
As 5 Vantagens Competitivas da Gestão Feminina
1. Resiliência e capacidade de reposicionar o negócio em crises de mercado
2. Habilidade natural para gerenciar múltiplas frentes estratégicas simultâneas
3. Visão holística e autoral sobre toda a cadeia produtiva da empresa
4. Foco contínuo no treinamento e ampliação de repertório dos times
5. Cuidado com os impactos humanos em processos de demissão ou transição
O fim do mito da super-heroína
Para Carla Fonseca, CEO da Smiles, a mudança desse panorama não pode ser encarada como uma missão solitária das mulheres, mas sim como uma meta cultural e intencional do negócio, cobrada diretamente do conselho e dos líderes de recursos humanos.
A construção de redes de mentoria também é vista como um passo essencial, e os homens — que hoje detêm quase 95% das cadeiras de comando — precisam assumir o papel de patrocinadores dessas carreiras.
“A grande recomendação para quem tem a ambição de chegar ao topo é recusar o papel de super-heroína. Ninguém carrega o mundo nas costas sozinha. Construa um ciclo de apoio real em casa e no trabalho”, aconselha Poliana Sousa, presidente da General Mills Brasil.
A lição que fica em 2026 é clara: o mercado não precisa de mulheres perfeitas que sacrificam a vida pessoal; precisa de empresas inteligentes que entendam que a igualdade de gênero é o melhor atalho para a inovação e o lucro.








