Existe uma força silenciosa, porém avassaladora, na forma como as mulheres capixabas empreendem. Muitas vezes, os maiores negócios não nascem de planilhas frias ou de reuniões corporativas de terno e gravata, mas do alinhamento entre a sensibilidade humana, a intuição aguçada e a necessidade real de transformação. A história da Pranai Chás e de sua fundadora, Bárbara Borges, é o retrato exato dessa potência. O que começou como uma busca desesperada por desacelerar o corpo e a mente em meio à rotina exaustiva do meio jurídico transformou-se em um marco histórico para o agronegócio de nicho do Espírito Santo: a conquista de duas medalhas de ouro na mais prestigiosa competição mundial de chás, em Paris.
A trajetória de Bárbara reflete o dilema de milhares de mulheres que enfrentam o esgotamento no ambiente corporativo tradicional. Formada em Direito, ela se viu no limite do desgaste físico e emocional. O corpo pediu uma pausa, e o espírito exigiu reconexão. Em busca de respostas e de um alívio genuíno para a própria saúde, Bárbara decidiu mergulhar no estudo acadêmico de Plantas Medicinais na Universidade Federal de Viçosa. Ali, no contato direto com a terra, com a secagem correta das folhas, com as propriedades curativas das espécies tropicais e com os rituais de preparo, ela encontrou mais do que um refúgio pessoal; encontrou a sua verdadeira vocação.
O que era um processo de autocuidado começou a se espalhar em forma de afeto. Bárbara passou a criar formulações exclusivas — os chamados blends — para consumo próprio. Em pouco tempo, a xícara fumegante que trazia paz ao seu dia passou a ser compartilhada com amigos e familiares. Os elogios e a constatação de que aquele gesto artesanal gerava um impacto profundo na vida das pessoas acenderam uma faísca. Em 2018, quando o conceito de “chá premium” mal arranhava a superfície do varejo brasileiro, dominado por sachês industriais padronizados e sem identidade, a empreendedora capixaba decidiu que era hora de profissionalizar seu propósito. Nascia ali a Pranai.
A visão de Bárbara antecipou uma tendência que anos mais tarde os relatórios econômicos batizariam de wellness cotidiano: a busca por hábitos simples de bem-estar incorporados ao dia a dia. Para além do consumo puramente funcional, o chá passava a ser encarado como um artigo de gastronomia, um momento de pausa sagrada e uma experiência sensorial completa. No entanto, criar uma marca com propósito não significava abrir mão do rigor técnico. Pelo contrário. Em 2019, Bárbara buscou a especialização formal como Sommelier de Chá em São Paulo, decodificando a complexidade botânica da Camellia sinensis e refinando a arte de harmonizá-la com o ecossistema brasileiro.
Durante sete anos, a rotina foi marcada por pesquisas incansáveis, testes laboratoriais, controle térmico de infusão e centenas de litros provados. O objetivo nunca foi escalar rápido de forma genérica, mas construir uma base sólida fundada na rastreabilidade dos ingredientes, na produção artesanal e na identidade própria. A persistência feminina se pagou. A Pranai consolidou sua presença no mercado, abastecendo desde o varejo especializado até cafeterias gourmet e clínicas de bem-estar, atendendo a um público cada vez mais atento à procedência do que consome.
O teste de fogo definitivo veio no final de 2025. A Agence pour la Valorisation des Produits Agricoles (AVPA), prestigiada instituição francesa que há 25 anos avalia e chancela os melhores produtos agrícolas de origem no mundo — como cafés finos, azeites e chocolates de luxo —, realizou a oitava edição do concurso Teas of the World, em Paris. A competição reuniu mais de 300 marcas de potências milenares e dominantes do setor, como China, Índia, Sri Lanka, Japão e Taiwan. O Brasil esteve representado por apenas duas marcas. Uma delas trazia a assinatura, o suor e a sensibilidade de uma mulher capixaba.
Quando os resultados foram anunciados, o mercado internacional olhou com surpresa para o Espírito Santo. A Pranai conquistou duas medalhas de ouro. As criações premiadas foram o Sweet Orange, um blend autoral estruturado sobre a base de Camellia sinensis, e o Origens, uma infusão pura, rica e completamente isenta de aromatizantes artificiais. A vitória comprovou que a precisão no manejo dos óleos essenciais das plantas do nosso território consegue atingir uma elegância estrutural capaz de rivalizar com os mestres orientais mais tradicionais do planeta.
Esse triunfo em Paris não é um mero prêmio de prateleira; é um passaporte estratégico. O setor global de chás caminha para atingir a marca de US$ 115 bilhões até 2033, com uma taxa de crescimento de 6,5% ao ano. No Brasil, o mercado projeta saltar de US$ 577 milhões para US$ 827 milhões até 2034. A Pranai chega a esse momento de expansão com o melhor cartão de visitas que uma marca pode ostentar. Qualificada pelo Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), executado no Espírito Santo via ApexBrasil, a empresa capixaba prepara a sua entrada no mercado internacional portando o selo máximo de qualidade chancelado pela elite gastronômica europeia.
O grande trunfo de Bárbara Borges foi compreender que a força do Brasil não está em tentar replicar a monocultura da planta asiática — cujas poucas lavouras nacionais se concentram no Vale do Ribeira, em São Paulo —, mas sim em explorar com sabedoria a nossa maior riqueza: a biodiversidade. O Brasil possui a maior variedade de plantas medicinais, aromáticas e frutíferas do mundo. Ao unir o rigor da sommelieria com a fartura das ervas locais, o Espírito Santo desenha no mercado de chás o mesmo movimento revolucionário que transformou o café especial em um item de desejo internacional.
A jornada de Bárbara e da Pranai deixa uma lição profunda para o ecossistema do empreendedorismo feminino capixaba. Mostra que o caminho mais longo — o de estudar, testar, respeitar o tempo dos processos e construir valor antes de buscar o volume — é justamente o mais sustentável. Em um mercado muitas vezes apressado, a sensibilidade, a busca pela cura e a coragem de uma mulher do Espírito Santo provaram que a nossa biodiversidade, quando trabalhada com maestria, tem sabor de ouro.








