No ecossistema do empreendedorismo, repetimos com frequência que as melhores ideias surgem da resolução de dores reais. No entanto, quando observamos o mercado sob a ótica feminina, percebemos que muitas dessas “dores” continuam sendo ignoradas ou tratadas como tabu pelo ambiente corporativo tradicional. Foi justamente ao romper com essa barreira e olhar para a própria rotina sem filtros que a influenciadora e empresária Virginia Fonseca, ao lado de sua sócia e comadre Samara Pink, deu origem a um modelo de negócios inovador no setor de bem-estar.
Com um investimento inicial de R$ 5 milhões, a dupla inaugurou em Goiânia a We Gym, sua primeira academia. O grande diferencial do empreendimento, contudo, não reside apenas nos equipamentos importados de ponta ou na estrutura moderna, mas sim em uma solução simples e profundamente empática: o plano mensal de 37 dias — dez a mais do que o padrão praticado por todo o setor fitness.
A vulnerabilidade como ponto de partida para a inovação
A decisão de estender a duração da mensalidade nasceu de uma reflexão genuína sobre a realidade do corpo feminino. Virginia relatou que, ao voltar a menstruar recentemente, enfrentou grandes dificuldades para manter a constância nos treinos devido aos sintomas físicos e emocionais do período pré-menstrual e menstrual. A indisposição, o inchaço e a sensação de desconforto tornavam a rotina de exercícios uma barreira quase insuperável durante cerca de uma semana do mês.
A virada de chave empreendedora aconteceu ao transformar esse incômodo pessoal em uma pergunta de negócios: por que cobrar de uma mulher por dias em que o próprio corpo a impede de treinar com conforto?
Ao adicionar sete dias extras ao plano tradicional de 30 dias, a We Gym garantiu que suas alunas não sofram prejuízo financeiro nem sintam a culpa de “perder” a mensalidade durante o ciclo. Para as mulheres que não menstruam ou não sentem os efeitos do período com intensidade, os dias adicionais tornam-se um benefício de treino contínuo. A medida demonstra como a escuta ativa das necessidades biológicas e emocionais pode redefinir prazos e métricas engessadas pelo mercado.
Ergonomia, escuta e o olhar atento aos detalhes
A filosofia do acolhimento estendeu-se para a concepção física do espaço. De acordo com Samara Pink, cofundadora da Wepink e sócia na nova empreitada, o foco da rede está no público amador — mulheres que frequentemente se sentem intimidadas ou vistas de forma genérica em academias convencionais.
Para garantir que a experiência fosse impecável, as empresárias viajaram para a China para selecionar pessoalmente cada equipamento. A escolha não se pautou apenas pela estética ou pelo apelo visual das marcas, mas pela ergonomia e pela sensação real do trabalho muscular no corpo feminino. O processo de curadoria contou, ainda, com a validação prática dos profissionais de educação física que atuam no espaço.
Além da infraestrutura física, a aposta das sócias reside na qualidade do atendimento e na construção de um ambiente onde a aluna se sinta segura para desenvolver o gosto pelo autocuidado no seu próprio ritmo, sem pressa e sem cobranças desmedidas.
Visão estratégica e consolidação antes da expansão
Embora o movimento de grandes marcas costume ser a rápida expansão por meio de franquias ou novas unidades, Virginia e Samara optaram por um caminho de consolidação estratégica. No momento, toda a operação da We Gym permanece centralizada na unidade de Goiânia, com o objetivo de testar, ajustar e aperfeiçoar cada detalhe do modelo antes de planejar passos futuros — que já incluem o desejo de levar a marca para o exterior no longo prazo.
A trajetória da We Gym oferece uma lição valiosa para todo o ecossistema de empreendedorismo feminino: Inovar não exige inventar algo extraordinariamente complexo; muitas vezes, basta ter a coragem de olhar para o cotidiano da mulher, acolher suas vulnerabilidades e transformar o respeito à sua rotina no verdadeiro coração do negócio.








