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Menos telas, mais mesa posta: como uma mãe empreendedora está reaproximando pais e filhos em todo o Brasil

No ecossistema corporativo contemporâneo, a busca por alta performance muitas vezes cobra um preço invisível, porém devastador: a distância das pessoas que mais amamos. Para as mulheres que ocupam posições de liderança, a linha entre o sucesso profissional e a culpa pela ausência na criação dos filhos pode se tornar um fardo insustentável. Foi exatamente ao encarar esse dilema de frente que a paulistana Karina Almeida, de 41 anos, decidiu que era hora de reescrever as regras do seu próprio destino.

Acostumada com a pressão de mais de duas décadas de carreira na área de Recursos Humanos — incluindo sete anos na ponte aérea constante entre São Paulo e Contagem (MG) como diretora corporativa —, Karina vivia a dura realidade da desconexão familiar. A virada de chave definitiva aconteceu durante a pandemia, quando se deu conta de que, a despeito de todo o empenho para garantir o conforto financeiro da casa, faltava-lhe o bem mais precioso: o tempo de qualidade ao lado do filho, João.

Movida pelo desejo inegociável de recuperar o vínculo perdido e ciente de que a infância não espera pelas agendas corporativas, Karina tomou uma atitude de extrema coragem: pediu demissão do cargo executivo para fundar a Mosaïque, uma marca de jogos educativos analógicos pensada para resgatar a presença dos pais na vida das crianças.

O nascimento da Mosaïque: quando a dor vira propósito de mercado

A percepção do modelo de negócios surgiu da observação atenta do cotidiano. Ao ver o filho e o sobrinho engajados com um jogo de tabuleiro, Karina notou que a grande barreira para a integração entre adultos e crianças não era o desinteresse dos pais, mas sim a falta de ferramentas atraentes e práticas que coubessem em partidas rápidas do dia a dia.

Com um investimento próprio de R$ 900 mil e aplicando toda a sua bagagem de gestão de custos e reestruturação corporativa, a empresária montou uma equipe multidisciplinar com pedagogas e designers. O laboratório de testes funcionava na própria sala de casa, tendo o pequeno João como o principal e mais sincero avaliador. Cada ajuste nas regras ou no visual dos tabuleiros era pensado para unir diversão, conteúdo alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e, sobretudo, conexão interpessoal.

Como resume a própria fundadora, a proposta da marca vai muito além do material impresso: a Mosaïque não vende apenas jogos; entrega presença, reconexão familiar e desenvolvimento da performance escolar como consequência natural do afeto.

Inovação, expansão pedagógica e o mercado público

Com uma estrutura operacional inteligente dividida entre produções artesanais e linhas em escala com certificação do Inmetro, a empresa acelerou seu crescimento. No final de 2025, a marca expandiu drasticamente seu portfólio ao adquirir o acervo de uma empresa parceira, saltando para um catálogo com foco que abrange do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

O grande carro-chefe da marca é o Matemática Futebol Clube, um jogo de tabuleiro que utiliza a paixão pelo esporte para ensinar resoluções numéricas. A aceitação do público foi tão expressiva que o título já passa por processos de tradução para outros idiomas e protagonizou um emocionante torneio escolar com mais de cem alunos. Para Karina, o momento ápice da nova fase não foi o sucesso comercial do evento, mas a oportunidade inédita de entregar, com as próprias mãos, uma medalha no peito do filho.

A estratégia de mercado da Mosaïque apoia-se fortemente no modelo B2B, comercializando lotes para colégios particulares, enquanto o varejo direto atende pais e avós pelas redes sociais e e-commerce. A operação projeta alcançar R$ 1,3 milhão em faturamento até 2027. Além disso, a marca se prepara para impactar a rede pública com a aprovação de um projeto de R$ 2 milhões via Lei Rouanet, que levará a metodologia de jogos, arte e matemática para 4 mil alunos de 21 escolas públicas espalhadas pelo litoral paulista e por Minas Gerais.

Novos horizontes e a lição da liderança feminina

O futuro da Mosaïque desenha novos caminhos focados no impacto social e na empatia corporativa. A empresa estuda levar seus tabuleiros para ambientes de pedagogia hospitalar, oferecendo acolhimento a crianças internadas, e desenvolve programas de parentalidade para grandes corporações, ajudando empresas a criarem um ambiente mais equilibrado para executivos que enfrentam os mesmos desafios que Karina vivenciou no passado.

A trajetória de Karina Almeida traz um ensinamento poderoso para todo o ecossistema de empreendedorismo feminino: o verdadeiro sucesso empresarial não exige o sacrifício da vida pessoal. Muitas vezes, a resposta para um negócio altamente rentável e transformador está escondida justamente na coragem de olhar para dentro de casa, acolher as próprias dores e transformar o afeto no maior ativo de liderança.

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