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Das leis para as panelas: Como uma ex-advogada transformou o prêmio de um reality em um negócio de R$ 2 milhões

A rotina de 16 horas diárias debruçada sobre livros de Direito e editais de concursos públicos parecia desenhar o futuro de Maísa Campos. Mas, em 2013, o destino da advogada pegou um atalho inesperado em direção aos estúdios de televisão. Ao vencer o reality culinário Cozinheiros em Ação, do canal GNT, ela trocou os tribunais pelas panelas e deu início a uma virada de carreira que, anos mais tarde, se transformaria em um negócio milionário.

Hoje, aos 39 anos, Maísa comanda a Casa 147, uma empresa de refeições prontas e congeladas sediada em Santos (SP) que faturou R$ 2 milhões em 2025. Na contramão dos tradicionais restaurantes com mesas e garçons, a ex-advogada apostou no conceito europeu de take away (comida para levar) e transformou a conveniência planejada em um modelo de gestão altamente rentável e humanizado.

O estalo em Paris e a validação na crise

O faro comercial de Maísa foi moldado com paciência. Logo após vencer o programa de TV, ela ouviu os conselhos de especialistas e evitou a pressa de abrir um restaurante. Em vez disso, fundou uma escola de culinária para amadores que financiou seu grande salto técnico: uma especialização na renomada Le Cordon Bleu, em Paris.

Foi nas ruas parisienses que ela observou o sucesso dos estabelecimentos focados puramente em refeições para viagem. Ao retornar ao Brasil, inaugurou a Casa 147 no bairro do Gonzaga, enfrentando o estranhamento inicial do público que não entendia um espaço gastronômico sem mesas.

A Linha do Tempo da Casa 147
├── 2013 ──> Vitória no reality do GNT e transição do Direito para as panelas
├── 2014 ──> Escola de culinária financia os estudos na Le Cordon Bleu (Paris)
├── 2017 ──> Abertura da Casa 147 focada no modelo europeu de "take away"
└── 2020 ──> Pandemia valida o modelo; vendas disparam entre 200% e 300%

A prova de fogo — e a validação definitiva do modelo — veio em 2020. Enquanto o setor de alimentação corria contra o tempo para se adaptar ao ecossistema de entregas, a Casa 147 já nasceu pronta para essa realidade. O resultado foi uma explosão de demanda de até 300%. Hoje, o faturamento é consolidado em uma divisão inteligente: 70% via delivery e 30% em vendas presenciais.

Vendendo criatividade e quebrando as regras do setor

O grande diferencial da marca é também o seu maior quebra-cabeça logístico: a rotação diária do cardápio, que oferece desde pratos completos a sopas e doces com porções generosas de até 830g. Mudar o menu todos os dias impede a compra de insumos em toneladas, mas cria um elo inquebrável de fidelidade com o cliente. “Se eu fizesse o mesmo bife com batata todo dia, a margem seria maior. Mas o nosso maior ativo é vender criatividade”, pontua Maísa.

Além disso, a bagagem jurídica da fundadora trouxe uma revolução na gestão de recursos humanos da cozinha, um setor historicamente conhecido por jornadas exaustivas:

  • Escala 5×2 (Segunda a Sexta): Os 14 funcionários não trabalham aos finais de semana, um benefício raríssimo na gastronomia.

  • Rotatividade Zero: A qualidade de vida gerou um índice de retenção impressionante, com colaboradores que completam nove anos de casa.

  • Logística de Fim de Semana: O descanso da equipe é viabilizado pelos congelados, já que os clientes programam as compras de abastecimento da geladeira até a sexta-feira, reduzindo também os custos fixos do imóvel nos dias fechados.

A “Economia do Cuidado” e o olhar para o futuro

Com um tíquete médio de R$ 160 e uma média de 60 pedidos diários, a Casa 147 encontrou um nicho precioso na “economia do cuidado”. Tornou-se um hábito na Baixada Santista que filhos comprem os kits de refeições saudáveis para abastecer as casas de pais idosos, além do público de mães que buscam praticidade na introdução alimentar dos bebês.

Para o fechamento de 2026, com uma meta de crescimento de até 20%, Maísa já planeja os próximos passos da expansão: a construção de uma sede própria para funcionar como centro de distribuição e a abertura de novas filiais na Baixada e na capital paulista.

Paralelamente ao crescimento econômico, a veia social da empresária pulsa forte. Em agosto, ela dá início ao Capacitamina, um projeto social com aporte estrangeiro e aprovação municipal que vai oferecer formação gastronômica gratuita para mulheres em situação de vulnerabilidade na periferia de Santos. Um legado que prova que o sucesso na cozinha, assim como no Direito, é uma questão de técnica, justiça e muita paixão.

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