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Como Sarah Lucena criou a Mappa, a startup que usa a voz para revolucionar o recrutamento

Sarah Lucena, nascida em João Pessoa (PB), trilhou um caminho profissional que começou no jornalismo, passou pelo marketing de performance e acabou desembocando no Vale do Silício — onde criou uma das startups mais inovadoras do mercado de recursos humanos. Antes mesmo de se formar, já liderava uma equipe de mais de 30 pessoas em uma fintech uruguaia, gerenciando budgets multimilionários em campanhas para toda a América Latina. “Eu estava no topo do mundo, mas estava vazia”, relembra.

Foi dessa inquietação pessoal que nasceu, em 2022, a Mappa, uma plataforma norte-americana que conecta candidatos e empresas por meio de uma inteligência artificial capaz de analisar biomarcadores da voz. A ideia: transformar a fala espontânea em dados comportamentais, aumentando a precisão das contratações e evitando processos longos e ineficientes.

A tecnologia é proprietária e foi construída ao lado dos sócios Pablo Bergolo e Daniel Moretti, com apoio direto de psicólogos e especialistas em machine learning. O sistema analisa 30 indicadores vocais, como velocidade da fala, pausas, variações de tom e padrões linguísticos — tudo isso cruzado com dados públicos como LinkedIn e portfólios. “A fala é a forma mais espontânea de se comunicar. Tentamos vídeo, mas os resultados caíram porque as pessoas performam diante da câmera”, explica.

Do início ao fim, o candidato passa pelo processo apenas por áudio. Responde perguntas, envia mensagens de voz e realiza a entrevista final pelo mesmo canal. Depois, recebe uma análise detalhada — o mesmo relatório que a empresa contratante verá. Muitos inclusive compartilham o resultado nas redes sociais, ajudando a ampliar a visibilidade da Mappa.

Do lado das empresas, a plataforma faz um diagnóstico da cultura organizacional e cruza tudo com os dados comportamentais para identificar compatibilidade real entre expectativas e perfis profissionais. O resultado impressiona: a Mappa atingiu 93% de conversão entre entrevistas e contratações, com menos de 2% de turnover em 2024. “Reduzimos processos que duravam meses para menos de cinco dias”, afirma Sarah.

O impacto não se restringe ao recrutamento tradicional. Instituições de ensino já usam a tecnologia para validar desenvolvimento de estudantes, enquanto fundos de investimento aplicam a análise comportamental para avaliar founders e prever potencial de crescimento. “Tudo que envolve entender a probabilidade comportamental de um indivíduo é um campo em que conseguimos gerar valor”, diz a empreendedora.

Em 2025, a Mappa deu um salto importante: levantou US$ 3,4 milhões (cerca de R$ 18 milhões) em rodada liderada pela Draper Associates, com participação de fundos como Serac Ventures, Riverwalk Capital, Sher Ventures, Seagrass, Angel Squad (Hustle Fund), Grão VC, SoGal Ventures, The Pitch e AngelHub México. O aporte será usado para ampliar o time técnico e comercial e integrar a tecnologia a ferramentas como Airtable, Notion e Excel. A empresa também está expandindo sua análise para mais de 420 mil biomarcadores, tornando a leitura comportamental ainda mais sofisticada.

A startup encerrou o último ano com US$ 3,7 milhões (R$ 19,6 milhões) em faturamento e projeta chegar a US$ 5 milhões em 2025 e dobrar em 2026, alcançando US$ 10 milhões. Nos próximos meses, a expectativa é iniciar a captação de uma série A focada na expansão global.

Para Sarah, empreender nos Estados Unidos não significa se distanciar do Brasil — pelo contrário. Um dos objetivos estratégicos é aumentar a contratação de talentos latino-americanos por empresas americanas. Hoje, os salários de profissionais brasileiros contratados pela plataforma variam entre US$ 3.500 e US$ 4.000. “Nos dedicamos à aquisição de talentos da América Latina para apoiar o crescimento das organizações e o desenvolvimento dessas pessoas. Isso gera impacto fora dos grandes centros”, afirma.

A trajetória da Mappa é, ao mesmo tempo, técnica e profundamente humana: nasceu de uma frustração pessoal e se transformou numa tecnologia que tenta devolver propósito — tanto para quem contrata quanto para quem busca oportunidade. E, no centro disso, está a voz: espontânea, natural e, agora, decodificada para revelar potencial.

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