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Da dor do próprio bolso a uma startup de R$ 100 milhões: a saga da capixaba que ensinou o Brasil a planejar o futuro

No ecossistema de negócios, costuma-se dizer que os empreendimentos mais duradouros não nascem do desejo abstrato de faturar milhões, mas da urgência visceral de resolver um problema real. Quando essa busca por soluções se alia à disciplina, ao olhar estratégico e à resiliência característica do empreendedorismo feminino, o resultado tem o poder de movimentar estruturas consolidadas de mercado. A história da planejadora financeira Lara Martinelle e de sua empresa, a LM Planejamento Financeiro, é o retrato impecável desse movimento.

Fundada em Vila Velha no ano de 2019, a startup capixaba acaba de alcançar um marco simbólico e econômico de peso: a validação de um valuation (valor de mercado) de R$ 18 milhões após a atração de um novo sócio. O aporte traz o combustível necessário para alavancar um plano de expansão arrojado. Com um portfólio de 500 clientes recorrentes e um time formado por 16 profissionais, a meta traçada por Lara até 2030 é alcançar três mil famílias na consultoria personalizada e atingir a marca de 100 mil assinantes em seu aplicativo de finanças.

O estalo pessoal e o nascimento de uma metodologia autoral

Para compreender o alcance desse modelo de negócios, é preciso retornar a 2018. Trabalhando no mercado financeiro desde 2017 com a comercialização de produtos de investimento e seguros, Lara vivia uma contradição inquietante e bastante comum a milhares de brasileiras: apesar de faturar bons honorários, não conseguia organizar o próprio orçamento. A falsa promessa de que “quando ganhasse mais, conseguiria se organizar” mostrou-se uma armadilha.

O ponto de virada definitivo aconteceu após o seu pedido de casamento, quando a necessidade de planejar o futuro a dois escancarou a falta de controle sobre os próprios recursos. Ao buscar auxílio nas fórmulas prontas do mercado — como as famosas regras orçamentárias 50-30-20 ou 70-30 —, Lara percebeu que aqueles modelos rígidos não respeitavam o comportamento dinâmico e real das pessoas.

Determinada a encontrar uma saída sustentável, a empresária capixaba debruçou-se sobre o estudo do comportamento humano com o dinheiro. Dessa imersão nasceu o método LAPI: uma sigla para Lançar, Analisar, Planejar e Investir. O grande diferencial da metodologia reside no terceiro pilar. Em vez de apenas registrar gastos passados em planilhas frias, o cliente aprende a desenhar a previsibilidade do seu mês antes mesmo de ele começar, sabendo exatamente onde e como poderá aplicar o seu dinheiro com inteligência.

“Lançar e analisar você consegue fazer em uma planilha. Mas planejar é o X da questão. Antes de começar o mês, o cliente já sabe com o que pode gastar.” — Lara Martinelle, fundadora da LM Planejamento Financeiro

Da mesa de casa à validação digital na pandemia

O que começou como uma solução pessoal logo transbordou para os atendimentos informais no período noturno e ganhou visibilidade nas redes sociais. Ainda no final de 2019, Lara venceu a timidez inicial e passou a produzir conteúdos educativos sobre educação financeira no Instagram.

A chegada da pandemia em 2020 acelerou drasticamente a demanda. Diante da queda repentina de receitas e do fechamento de consultórios e pequenos comércios, profissionais liberais e autônomos viram a falta de gestão financeira tornar-se uma ameaça real de falência. Pronta, com formulários estruturados e uma presença digital ativa, Lara transformou a consultoria em uma operação empresarial robusta. Em um modelo de produção enxuto — onde gravava, atendia e vendia sozinha —, a empresária ultrapassou a marca de R$ 1 milhão em vendas de cursos online, provando a altíssima capacidade de escala da sua proposta.

O salto seguinte foi a profissionalização da gestão. Lara adquiriu uma sede física, trouxe a cunhada para liderar o marketing e montou um time de consultoras treinadas sob a sua metodologia. A confirmação de que o método LAPI poderia ser replicado por terceiros com o mesmo padrão de qualidade abriu as portas para o crescimento estruturado.

Tecnologia capixaba para o mundo: o aplicativo e o plano de R$ 100 milhões

Hoje, a LM atua no formato de consultoria por assinatura, oferecendo acompanhamento contínuo para diferentes momentos de vida — desde a organização individual e o planejamento em casal até soluções para empreendedores que precisam separar as finanças pessoais das empresariais. Essa previsibilidade de receita recorrente foi a base que sustentou a avaliação de R$ 18 milhões da empresa.

A grande aposta para o futuro próximo é o lançamento do aplicativo LAPI, previsto para setembro de 2026. A ferramenta, que funcionará por assinatura mensal de R$ 29 para pessoas físicas e contará com versões empresariais, foi desenhada para guiar o usuário na construção de metas claras, sem o viés meramente extrativo dos aplicativos tradicionais.

Com uma arquitetura desenvolvida para permitir o uso em diferentes idiomas e moedas, o negócio nascido em Vila Velha demonstra que a inteligência empreendedora capixaba tem musculatura para romper divisas estaduais e nacionais. Em um cenário saturado por discursos sobre investimentos arriscados, a startup de Lara foca naqueles que precisam estruturar a casa antes de construir o patrimônio.

A trajetória de Lara Martinelle reforça a potência do empreendedorismo feminino no Espírito Santo. Mostra como o rigor técnico, o acolhimento das dores do cotidiano e a coragem para inovar conseguem transformar uma vivência individual em um empreendimento de alto impacto social e econômico. Com um planejamento pé no chão e execução diária, a meta de criar um negócio de R$ 100 milhões deixa de ser um sonho abstrato para se tornar uma questão de tempo e matemática.

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