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Da barraca na estação de trem ao faturamento de R$ 60 mil: a saga da criadora do Kitanda das Minas e do Kitanda Café

O empreendedorismo brasileiro encontra nas periferias e na força das mulheres negras sua expressão mais autêntica e resiliente. Para Priscila Novaes, de 42 anos, a relação com a cozinha sempre esteve longe de ser um mero ato comercial. Definida por ela como um espaço de afeto, conforto e memória, a gastronomia ganhou um significado espiritual e técnico ainda mais profundo quando Priscila tornou-se iyabassê — a responsável pelo preparo dos alimentos em uma casa de candomblé.

No entanto, a transição entre o dom da culinária e a estruturação de um negócio rentável exigiu uma jornada intensa de aprendizados de mercado, capacitação profissional e superação de preconceitos estruturais.

O início nas ruas e o choque da realidade operacional

A trajetória empresarial de Priscila começou em 2009, quando decidiu desligar-se de um emprego em telemarketing. Utilizando os R$ 1 mil recebidos na verba rescisória, montou uma modesta barraca de café da manhã na estação de trem de Guaianases, na Zona Leste de São Paulo. A experiência nas ruas trouxe um choque de realidade imediato: a constatação de que gostar de cozinhar não era suficiente para manter uma empresa viável. Logística, precificação, marketing e fluxo de caixa exigiam competências muito específicas.

Buscando profissionalização, Priscila fez formação técnica em gastronomia, atuou como confeiteira e comercializou salgados. Por não se sentir realizada, alternou momentos na cozinha com empregos formais no comércio e em lojas de shopping.

A virada de chave definitiva começou a se desenhar em 2012, quando fundou o coletivo Mulheres de Ori, na Cidade Tiradentes. Ao mergulhar em pesquisas sobre raça, gênero e a trajetória de mulheres negras que empreendiam por meio da alimentação, ela resgatou a história das quitandeiras angolanas e das “mulheres de nação mina” — que, durante a escravização no Brasil, usavam a venda de alimentos como estratégia de sobrevivência, comunicação e compra da alforria. Essas descobertas renderam o livro “Ajeum – O Sabor das Deusas”, publicado em 2017, e acenderam a fagulha para o surgimento do Kitanda das Minas.

Da inspiração afro-diaspórica ao faturamento de R$ 60 mil

O Kitanda das Minas nasceu como um serviço de buffet focado em culinária afro-diaspórica para eventos. A conexão com a gastronomia de Angola fortaleceu-se quando Priscila casou-se com o angolano Antônio Salumbongo e visitou o país em 2019. Ali, a empresária identificou as pontes diretas entre as duas culturas alimentares: o paralelismo entre o frango com quiabo brasileiro e a muamba angolana (que adiciona pasta de amendoim), ou a semelhança entre o angu e o funji.

Para alavancar o crescimento da empresa e estruturar a operação sem depender do capital de giro tradicional de bancos, Priscila utilizou a estratégia de submeter seu projeto a editais de fomento e aceleração de negócios sociais:

  • Primeira fase (Estruturação): Com um edital da Fundação Tide Setubal de R$ 12 mil, comprou os primeiros equipamentos básicos para o buffet.

  • Segunda fase (Profissionalização): Através da ANIP (parceria entre FGV e Artemisia), captou R$ 20 mil para otimizar a operação de catering.

  • Terceira fase (Expansão física): Um aporte de R$ 50 mil da organização Zeste permitiu a criação do Kitanda Café, instalado na tradicional Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista.

Atualmente, o serviço de catering e eventos permanece como o carro-chefe da empresa, registrando um faturamento médio de R$ 60 mil mensais. O Kitanda Café, por sua vez, está na fase de consolidação operacional, reinvestindo seus ganhos na própria infraestrutura.

O desafio da legitimação e a busca pela construção de patrimônio

Apesar do sucesso de público e da consolidação da marca, Priscila aponta que os desafios enfrentados por lideranças femininas negras continuam sendo uma realidade dura. A empresária relata que a busca por investimentos é frequentemente marcada por um olhar de desconfiança: mesmo apresentando números sólidos e projeções coerentes, é comum que investidores questionem a autoria de seus planejamentos financeiros.

Além da barreira do crédito, Priscila faz uma provocação lúcida ao ecossistema do empreendedorismo no Brasil. Segundo ela, há uma romantização exagerada sobre a rotina de quem administra um negócio próprio, frequentemente camuflando o fato de que, para a maioria das pessoas, empreender é apenas uma forma de garantir renda básica, e não de acumular riqueza.

“Às vezes, a gente fantasia muito o que é empreender. Nós estamos falando apenas de ter uma fonte de renda, muitas vezes. Não estamos falando de construir patrimônio. Agora, meu desafio é justamente esse: saber quanto vale a minha empresa e transformá-la em um patrimônio para a minha família.”

Priscila Novaes, fundadora do Kitanda das Minas

A trajetória de Priscila Novaes exemplifica como o conhecimento técnico, aliado ao resgate da memória cultural e à ocupação consciente de espaços públicos, pode transformar um projeto de subsistência em uma empresa respeitada, escalável e geradora de legado

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