VER. BETA

O exemplo de determinação da jovem de Goiânia que não esperou a maioridade para empreender

Existem negócios que nascem de planos de ação milimetricamente calculados; outros emergem da necessidade visceral de cura, calma e ocupação do tempo. Para Geovanna Cássia Vieira Pereira, hoje com 20 anos, o universo do empreendedorismo abriu suas portas de forma totalmente inesperada no ano de 2021, em meio ao isolamento da pandemia. Enfrontando fortes crises de ansiedade aos 15 anos de idade, a então estudante do nono ano encontrou na saboaria artesanal um refúgio para desacelerar a mente. O que era para ser apenas um hobby terapêutico rapidamente revelou-se o embrião da Fioratto, sua marca autoral de cosméticos e aromas criada em Goiânia (GO).

O início da caminhada foi marcado pela simplicidade e pelo apoio familiar. Impossibilitada de abrir uma empresa formal por ser menor de idade na época, Geovanna utilizou o CNPJ e o suporte financeiro do pai para realizar o investimento inicial de cerca de R$ 200. O valor cobriu a compra de panelas e formas específicas para saboaria — em sua maioria importadas da China. O primeiro pedido pago veio de sua própria mãe, um sabonete de erva-doce que simbolizou o ponto de partida de uma produção que logo ganharia escala.

A rotina das madrugadas e o rigor no desenvolvimento de produtos

Entre aulas remotas e testes de bancada, a jovem fundadora conciliava a rotina escolar com a confecção e embalagem dos produtos. Para conseguir gravar os vídeos do processo produtivo sem os ruídos do cotidiano da casa, Geovanna virava madrugadas finalizando encomendas. Essa dedicação aos bastidores começou a render frutos quando os conteúdos publicados no TikTok passaram a viralizar, atraindo enxurradas de novos pedidos via WhatsApp.

Com o tempo e o crescimento das vendas, veio a necessidade de profissionalização. A marca, originalmente batizada de Fiore, precisou ser rebatizada como Fioratto para permitir o registro formal no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), processo que Geovanna conduz hoje já munida de seu MEI.

O portfólio da marca expandiu-se e hoje conta com itens como o hidratante e o body splash Sol de Morango, sabonetes funcionais de açafrão, maracujá e morango, e aromatizadores de ambiente refinados, como o Home Spray Madeira Nobre (comercializado a R$ 82,99). Cada lançamento passa por um rígido controle de testes aromáticos. Na criação de suas essências, compradas em São Paulo para garantir qualidade, a empresária ajusta pessoalmente os blends até encontrar o equilíbrio perfeito — como ao suavizar notas muito doces com toques de limão-siciliano e chá-branco. O processo produtivo exige paciência: enquanto um hidratante fica pronto em um dia, os body splashes passam por sete dias de maceração e os home sprays levam até um mês para atingir o ponto ideal.

O desafio da exposição e os ruídos do ambiente digital

Trabalhar com a criação de conteúdo no ambiente digital traz um aprendizado constante sobre a volatilidade das redes. Recentemente, um vídeo mostrando os bastidores da produção do sabonete de maracujá — vendido por R$ 18,99 no e-commerce da marca — ultrapassou a marca de 4 milhões de visualizações.

No entanto, a edição rápida adaptada às tendências das redes fez com que parte do público confundisse a base de glicerina (apenas uma das etapas do processo de melt and pour) com o produto final pronto, gerando uma onda de críticas infundadas sobre os custos e a precificação dos itens.

Embora o vídeo de grande alcance não tenha se revertido em um salto direto nas vendas, Geovanna extraiu lições valiosas do episódio. A repercussão ampliou a visibilidade da Fioratto nas redes e atraiu milhares de novos seguidores interessados em conhecer a fundo o trabalho artesanal. O desafio de precificar produtos de alta qualidade em uma cidade como Goiânia — que não possui fornecedores locais do setor de essências, exigindo altos custos de frete e insumos — reforça a complexidade de manter uma operação enxuta e rentável.

Próximos passos e a consolidação do negócio

Sem se deixar abalar pelos comentários mal-intencionados, a empresária foca agora na estruturação do crescimento da Fioratto. Além do site próprio com tíquete médio de R$ 80, a marca expandiu seus canais de vendas para plataformas como Shopee, TikTok Shop e feiras locais.

Os planos para o futuro próximo incluem investir em estratégias de tráfego pago para construir um fluxo de vendas previsível, sem depender exclusivamente da imprevisibilidade dos algoritmos. Geovanna também trabalha para encarar a timidez e aparecer mais nos canais da marca, humanizando o contato com o cliente.

A trajetória da fundadora da Fioratto inspira o ecossistema do empreendedorismo feminino ao provar que a juventude não é obstáculo para a construção de um negócio sério. Transformando a sensibilidade em força de trabalho, Geovanna mostra que a autenticidade e o cuidado artesanal continuam sendo os melhores ingredientes para construir uma marca duradoura.

Compartilhe AGORA:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *