Em 2015, o ecossistema do Brás, no coração de São Paulo, testemunhava mais uma entre milhares de sacoleiras que tentavam a sorte entre fardos de tecido e araras apinhadas. Letícia Vaz, então com 17 anos, carregava um capital inicial de R$ 500 emprestados pelo pai e uma urgência imediata: pagar as mensalidades da faculdade de jornalismo e garantir sua permanência na capital paulista. Filha de uma costureira de enxovais e de um trabalhador do setor de autopeças de Bragança Paulista, a jovem não tinha rede de segurança financeira. O que começou como puro instinto de sobrevivência estudantil, contudo, pavimentou o caminho para a criação de uma holding que projeta faturar R$ 30 milhões até o encerramento de 2026, impulsionada por uma guinada em direção à inteligência artificial e martech.
A engrenagem comercial de Letícia mudou de rota quando ela percebeu que as salas de aula e os grupos de Facebook de universidades tradicionais paulistas, como Mackenzie e ESPM, funcionavam como laboratórios de consumo em tempo real. Em 2016, ao notar o surgimento da tendência global de croppeds no exterior — e a completa ausência do produto nas confecções nacionais —, ela decidiu usar o maquinário da mãe para manufaturar as primeiras peças. O teste prático ocorreu em uma festa universitária. A recepção foi imediata e o volume de encomendas transformou a revenda informal na LV Store.
O diferencial da marca não residia apenas no design das roupas, mas no uso empírico do que o mercado publicitário conceitualizou anos depois como marketing de influência. Letícia era a modelo, a curadora, a vendedora e a estrategista digital da própria etiqueta.
A lógica da produção sob demanda contra o desperdício do varejo
Enquanto a indústria global de moda rápida (fast fashion) historicamente se ancora em longas cadeias de suprimentos e estoques massivos, a LV Store adotou um modelo contracorrente: produção 100% própria e sob demanda. Sediada em Bragança Paulista, a operação conta com aproximadamente 55 funcionários diretos e despacha cerca de 2.500 pedidos por mês, registrando um ticket médio de R$ 400 e uma taxa de recompra de 45% — índice considerado alto para o e-commerce de moda.

A decisão de internalizar a fábrica, contudo, não nasceu de um planejamento acadêmico, mas de uma postura defensiva em relação à ética e à qualidade do setor. O mercado têxtil carrega marcas profundas de precarização trabalhista, e o controle total do processo produtivo blindou a marca contra riscos de imagem e gargalos logísticos. Se por um lado a fábrica própria impõe um teto para a escalabilidade física imediata, por outro concede à empresa uma agilidade quase cirúrgica. Um modelo desenhado na segunda-feira pode ser cortado, costurado, fotografado e disponibilizado para venda nas plataformas digitais em questão de dias.
A estrutura também permitiu uma aproximação singular com o consumidor final através da personalização de ajustes básicos, como barras e comprimentos, mimetizando a experiência da alfaiataria tradicional no ambiente do varejo eletrônico. Esta musculatura digital provou-se crucial em 2020. Quando a pandemia de Covid-19 paralisou os centros comerciais físicos, a empresa operava em ritmo pleno na internet.
O ponto de inflexão: quando o conhecimento virou software
Foi justamente durante o período de isolamento social que a holding iniciou sua primeira grande diversificação de receita. Ao compartilhar os bastidores de sua gestão de e-commerce e as estratégias de tráfego que sustentavam sua confecção, Letícia desenhou um curso rápido voltado para microempreendedores que precisavam migrar às pressas para o ambiente virtual. O produto digital faturou mais de R$ 1 milhão em apenas trinta dias. O episódio deixou claro que o principal ativo da holding havia transicionado do produto físico para o método de gestão.
A validação desse modelo de educação corporativa deu origem à ModaLab, braço de mentorias e treinamentos da marca que passou a diagnosticar as dores crônicas das PMEs brasileiras. No contato direto com centenas de negócios em expansão, a equipe da holding identificou uma falha sistêmica recorrente: a fragmentação tecnológica. As empresas utilizavam múltiplos softwares isolados para gerenciar estoque, emitir notas, disparar mensagens e analisar dados, criando zonas cegas de gestão e desperdiçando eficiência.
Para resolver o problema dentro de sua própria confecção, a equipe de desenvolvimento interno de Letícia começou a criar algoritmos e sistemas integrados. A transição da automação interna para uma unidade de negócios independente foi o passo natural que culminou no lançamento da Letícia Vaz Tech (LV Tech).
Estrutura de Receita da LV Holding
├── Moda (LV Store) ──────> Sustentação, receita recorrente e construção de marca
├── Educação (ModaLab) ───> Altas margens de lucro e ampliação de captação
└── Tecnologia (LV Tech) ─> Escala geométrica e receita previsível (SaaS)
A substituição do faro comercial pela ciência de dados
Antes mesmo do lançamento da nova divisão de tecnologia, a tomada de decisões da LV Store já havia abandonado o empirismo tradicional da moda. A holding desenvolveu um sistema preditivo apelidado internamente de “look do dia”. O mecanismo analisa variáveis externas como a temperatura climática da região da cliente, o dia da semana e o histórico de navegação no site para sugerir combinações de roupas altamente personalizadas. A substituição da curadoria humana por recomendações automatizadas baseadas em dados elevou a taxa de conversão da estratégia em 25%.
O primeiro produto comercial da LV Tech a ganhar o mercado de software como serviço (SaaS) é o LinkCommerce. A ferramenta propõe uma evolução tecnológica sobre o conceito do tradicional “link na bio” do Instagram e TikTok. Em vez de uma árvore estática de botões que redireciona o usuário para páginas externas, o sistema funciona como um ambiente transacional inteligente alimentado por IA. O software interpreta o comportamento de navegação do visitante e reorganiza os produtos e serviços exibidos em tempo real, priorizando o que tem maior probabilidade de fechamento.
Com planos de assinatura que partem de R$ 60 mensais, o foco está na democratização do acesso a recursos que antes demandavam investimentos proibitivos para pequenos influenciadores e comércios locais. Na outra ponta da tabela tarifária, a divisão atende corporações com soluções de alta customização, cujos setups chegam a R$ 12 mil e mensalidades superam os R$ 1.500.
A disputa pelo ecossistema digital das PMEs
O movimento estratégico da LV Tech coloca a holding em rota de concorrência com um mercado globalizado e fervilhante. No exterior, plataformas pioneiras de agregação de links como Linktree, Beacons e Stan Store realizam movimentos agressivos para incorporar ferramentas de pagamento direto e análise de audiência. No cenário nacional, gigantes do e-commerce como a Nuvemshop expandem constantemente suas prateleiras de ferramentas integradas para evitar a evasão de lojistas em busca de automação externa.
O trunfo da nova operação da holding brasileira reside na verticalização do serviço. Ao amarrar a análise de dados comportamentais, agendamentos automáticos e processamento nativo de pagamentos em uma única interface, o sistema reduz o custo de fricção tecnológica para o usuário de menor porte.
A arquitetura financeira da LV Holding agora se apoia em um tripé complementar e equilibrado. A divisão de moda garante a solidez física, o fluxo de caixa diário e a tangibilidade da marca. A área de educação funciona como uma usina de alta margem de lucro e captação de clientes qualificados. Por fim, a vertical de tecnologia fornece o componente de escala geométrica e receita previsível que os mercados de capital costumam premiar. Para a jovem que começou negociando peças nos pátios universitários para custear os livros do próximo semestre, o algoritmo agora costura uma história de negócios de proporções muito maiores.








