Quem conheceu a paulistana Denise Gerassi há duas décadas, comandando fábricas da indústria farmacêutica que operavam 24 horas por dia sob uma liderança pesada, dificilmente imaginaria seu destino atual. Em 2010, aos 63 anos, Denise decidiu que era hora de trocar a rigidez industrial por algo que tocasse sua verdadeira paixão: os acessórios de moda. Nascida em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, ela investiu recursos próprios para fundar, em 2014, uma marca de bolsas de luxo sustentável que carrega não apenas o seu nome, mas a força da biodiversidade brasileira.
Dez anos depois, operando como uma marca nativa digital (DNVB) — ou seja, crescendo de forma robusta na internet e sem a necessidade de lojas físicas próprias —, a grife é um fenômeno. O negócio, que faturava R$ 600 mil em 2017, deu um salto espetacular e projeta fechar o ano de 2026 com um faturamento de R$ 2,5 milhões. A grande estrela dessa trajetória de inovação é a pele do peixe pirarucu, um material surpreendente que responde por 90% das vendas da marca e conquistou o exigente mercado de alto padrão, com peças exclusivas que chegam a custar R$ 7.890.
Engenharia sustentável e o poder do “luxo silencioso”
A transição de química para designer de bolsas trouxe para o negócio um rigor técnico valioso. O couro de pirarucu utilizado por Denise não vem da exploração predatória, mas sim do descarte de comunidades ribeirinhas da Amazônia que praticam a pesca de manejo sustentável. Cada pele possui um lacre numerado e controle rígido do Ibama, garantindo total rastreabilidade.
Mas transformar a pele de um peixe gigante em uma bolsa sofisticada é uma verdadeira obra de arte e inovação da engenharia de costura.
O Desafio Técnico do Pirarucu
├── Textura Natural ──> O relevo e as reentrâncias da pele exigem precisão milimétrica
├── Costura Minuciosa ──> A agulha da máquina pode desviar a qualquer momento nas escamas
└── Mão de Obra Especializada ──> Exige artesãos altamente capacitados para evitar erros
Essa dedicação minuciosa posicionou a marca perfeitamente na maior tendência atual do mercado de alto padrão de 2026: o luxo silencioso. Estudos apontam que os consumidores brasileiros estão mais criteriosos, trocando logotipos internacionais gigantes por marcas autorais, duráveis e com propósitos claros. “A nossa cliente valoriza a produção nacional, o feito à mão e o conceito de slow fashion”, explica Denise.
O crescimento sustentável que transforma vidas
Para Denise, o sucesso financeiro só é completo se gerar um impacto social positivo. Para dar conta da demanda crescente, ela expandiu sua produção de um para quatro ateliês terceirizados. Mais do que fechar contratos, a empresária ajudou a formalizar juridicamente e fiscalmente costureiros parceiros que antes trabalhavam na informalidade, nos fundos de suas casas. “Ajudamos a estruturar, a buscar contador e abrir empresa. Ver esse fornecedor construindo um novo espaço de trabalho na laje de casa me dá muito orgulho”, celebra.
A operação também adota a filosofia de resíduo zero. O forro das bolsas é feito com um tecido reciclado inovador (metade garrafas PET e metade algodão reaproveitado), onde cada metro retira oito garrafas plásticas do meio ambiente. Até as menores sobras de couro são doadas para sapateiros locais realizarem pequenos consertos, eliminando o descarte em aterros públicos.
O Ciclo de Impacto Positivo da Grife
[Peles Descartadas na Amazônia] ──> Renda para comunidades ribeirinhas parceiras
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[Ateliês de Costura em SP] ──> Formalização e estrutura para costureiros locais
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[Tecido Interno Reciclado] ──> Cada metro de forro retira 8 garrafas PET do planeta
A bola da vez no mercado premium
Após gerenciar sozinha todas as áreas do negócio por mais de uma década, Denise contratou seu primeiro funcionário exclusivo no final do ano passado, permitindo que ela se afastasse do operacional para focar na inovação e no futuro. E os planos transbordam otimismo: para os próximos cinco anos, a marca planeja expandir a atuação para linhas de calçados e até objetos de decoração premium revestidos com a pele de pirarucu.
Com parcerias físicas de peso — como uma linha exclusiva desenvolvida para o prestigiado Hotel Rosewood São Paulo —, Denise Gerassi prova que o Brasil tem tudo para liderar a moda sustentável global. “O que nos manteve firmes foi a constância de fazer o básico bem feito. Meu legado é provar que uma marca pequena consegue se consolidar apostando na nossa própria brasilidade”, conclui a empresária, cuja história inspira mulheres de todas as idades a redesenharem seus destinos com coragem e inovação.








