Em um mercado tradicionalmente fechado e pautado pela exclusividade do produto final, a Zamora Joalheria encontrou na transparência e no turismo de luxo o caminho para a diferenciação. Fundada em 2019 pela empresária Isabella Zamora, de 34 anos, a marca, localizada no bairro dos Jardins, em São Paulo, vem chamando a atenção do setor ao aproximar os clientes da origem das pedras preciosas e do processo de criação das joias.
O resultado é fruto de um modelo de negócios focado na educação do consumidor. A estratégia inclui desde consultorias personalizadas no ateliê até viagens guiadas e totalmente custeadas pela marca para que os clientes conheçam de perto as minas de extração de gemas no Brasil.
Bagagem corporativa e valores de campo
Antes de empreender no setor de joias, Isabella Zamora acumulou uma experiência de gestão incomum para o segmento. Aos 22 anos, assumiu o comando de uma operação de recapagem de pneus da Michelin em Brasília, liderando cerca de 40 colaboradores.
Além da convivência com a joalheria desde a infância por influência da mãe, a empresária trouxe da pecuária — outro negócio de sua família — os valores de reputação e contratos baseados na confiança mútua. Essa bagagem corporativa e de campo estruturou a criação de sua própria marca anos mais tarde.
“Muitas pessoas compravam uma joia sem entender o que estavam levando, dependendo apenas da opinião do vendedor. Eu queria devolver ao cliente o poder da decisão, explicando os critérios de qualidade e a origem de cada gema”, afirma Zamora.
Turismo de luxo e bastidores da produção
A virada estratégica da empresa ocorreu quando a fundadora decidiu transformar o processo produtivo em experiência de consumo. A joalheria passou a organizar expedições com grupos de clientes para visitar minas de pedras preciosas brasileiras, como as de Turmalina Paraíba. A iniciativa fortaleceu a confiabilidade da marca e gerou impacto imediato no faturamento e na retenção de público. As viagens acontecem a cada dois anos.
De acordo com a empresária, o impacto emocional das viagens mudou a relação dos consumidores com o produto. Em uma das ocasiões, uma cliente relatou que a experiência de ver a extração na mina havia sido mais marcante do que viagens internacionais convencionais.
Essa proximidade também abriu espaço para projetos de ressignificação de joias de família. Em um dos casos atendidos pelo ateliê, uma cliente utilizou uma Turmalina Paraíba escolhida na própria mina para compor o corpo de uma borboleta feita a partir de um broche antigo herdado de sua bisavó.
“Joia cara é a joia que você não usa. Ela só faz sentido quando participa da vida da pessoa e acompanha momentos importantes”, pontua Zamora.
Gestão e consolidação do crescimento
O crescimento da operação exigeu uma transição rápida do modelo familiar para uma estrutura corporativa sólida. No início, Zamora dividia todas as funções administrativas e operacionais com a mãe. Atualmente, a empresa conta com uma equipe interna de três funcionários fixos no escritório de São Paulo, além de agências parceiras nas áreas de marketing, tecnologia e assessoria de imprensa.
O amadurecimento do negócio enfrentou testes severos. Durante as obras de construção do ateliê nos Jardins, a mãe e sócia de Zamora foi diagnosticada com câncer de mama. A empreendedora precisou conciliar o início do tratamento quimioterápico da mãe com compromissos de expansão, feiras internacionais e prazos de engenharia. A superação do período acabou conferindo ao espaço físico um significado de resiliência que hoje se reflete no atendimento humanizado da marca.
Os indicadores de fidelização apontam a eficiência da estratégia: cerca de 30% dos novos clientes chegam à joalheria por meio de indicações espontâneas. Além do avanço no mercado nacional, a marca obteve reconhecimento internacional no último ano, quando Zamora foi selecionada para representar o design autoral brasileiro na Milano Jewelry Week, na Itália.
Para os próximos anos, o objetivo da empresa é consolidar esse modelo imersivo, expandindo o alcance da marca sem perder o controle de qualidade e a exclusividade do relacionamento direto com o consumidor.










