O fortalecimento do empreendedorismo e da liderança feminina no Brasil não é mais apenas uma pauta de equidade social; é um vetor indispensável de desenvolvimento econômico e inovação corporativa. Essa transformação ficou evidente na primeira edição do Summit Mulheres nas Profissões, realizado no Expo Center Norte, em São Paulo. Promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, o evento reuniu cerca de 21 mil pessoas e mais de 100 lideranças de destaque — de empresárias e ministras a influenciadoras e ativistas — em torno de um objetivo comum: acelerar a presença de mulheres em posições estratégicas de decisão.
A abertura das discussões, liderada pela empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, ressaltou a urgência de metas arrojadas de representatividade. Para Trajano, alcançar a paridade nos altos cargos e na política é o caminho definitivo para transformar o país. Essa visão foi endossada no painel que debateu a ocupação de posições C-level, enfatizando que a competência e a capacidade de entrega das profissionais femininas garantem resultados em qualquer nível de responsabilidade corporativa.
O fim da síndrome da impostora e a desconstrução da autocobrança
Um dos eixos centrais dos debates abordou os obstáculos invisíveis que frequentemente paralisam a evolução profissional das mulheres. A “síndrome da impostora” — o padrão psicológico em que a pessoa não atribui suas conquistas ao próprio mérito, justificando o sucesso como mera sorte ou acaso — foi debatida como um fenômeno a ser combatido ativamente.
Para romper com essa postura, a recomendação prática passa pela mudança de posicionamento e pela reestruturação da autoimagem. A forma como a líder se enxerga reflete diretamente na maneira como ela se posiciona perante investidores, clientes e equipes.
Complementando a análise dos aspectos comportamentais, líderes do ecossistema empreendedor reforçaram que a autoconfiança feminina costuma ser atacada ao longo da vida e precisa ser preservada por meio de redes de apoio e aprendizado técnico contínuo. Além disso, a aceitação da vulnerabilidade e o entendimento de que o erro faz parte do processo de inovação foram apontados como fatores de libertação contra a autocobrança excessiva. No ambiente dos negócios, encarar eventuais falhas como aprendizado é fundamental para continuar arriscando e crescendo.
Independência financeira, ambição e espaço público
Outro ponto cego frequentemente evitado no debate sobre carreira feminina foi enfrentado de forma direta: a relação com o dinheiro e com a política. Margarete Coelho, diretora de administração e finanças do Sebrae Nacional, destacou que a sociedade historicamente estigmatizou a mulher ambiciosa, criando um tabu em torno do desejo de prosperar e acumular patrimônio.
A educação financeira e a busca consciente por autonomia econômica foram apontadas como precondições para que as mulheres assumam posições de poder. Sem independência financeira, a capacidade de escolha e de ocupação de espaços de decisão torna-se extremamente limitada. A ocupação da política e dos conselhos administrativos foi defendida como uma necessidade urgente para que as prioridades e necessidades das mulheres passem a integrar o centro da pauta econômica nacional.
O equilíbrio relacional e a responsabilidade compartilhada
A igualdade no ambiente de trabalho também passa, inevitavelmente, pela transformação das dinâmicas privadas. Conforme abordado pela ministra do STF Cármen Lúcia, a divisão justa das responsabilidades domésticas é a base para que a mulher tenha tempo e energia dedicados ao seu desenvolvimento profissional. A gestão do lar deve ser compartilhada por todos os seus integrantes, permitindo que a dedicação à carreira e aos negócios não seja penalizada pela sobrecarga do cuidado invisível.
O panorama apresentado no encontro deixa um recado claro para o ecossistema corporativo: promover a liderança feminina vai muito além de preencher cotas. Trata-se de construir um ambiente de negócios onde a ambição seja encorajada, a autonomia financeira seja a regra, as redes de colaboração substituam o isolamento e o talento feminino ocupe, por direito e competência, o topo das organizaçõesl








