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De “louca” a pioneira no turismo cultural: a professora do Rio que transformou a memória dos cemitérios em negócio social

Onde a maioria das pessoas enxerga silêncio, luto e encerramento, a pedagoga, professora e guia de turismo Samantha Lobo, de 51 anos, enxergou um vasto campo de aprendizado, arte e resgate histórico. Em novembro de 2023, sua sensibilidade e capacidade analítica deram origem ao NecrotourRJ, uma iniciativa pioneira de turismo cultural no Rio de Janeiro que utiliza os cemitérios da cidade como “salas de aula” a céu aberto para contar a história do país por meio da memória de seus personagens e de sua arquitetura.

A semente do projeto foi plantada ao longo de 17 anos em que Samantha atuou como professora na rede pública municipal em uma escola vizinha ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Norte do Rio. A convivência diária com o espaço despertou a percepção de que a arte funerária e as biografias ali guardadas eram ferramentas multidisciplinares valiosas. Apesar de ouvir de colegas que era “doida” por querer levar alunos ao local, a educadora manteve a pesquisa viva como um hobby e objeto de estudo. O incentivo decisivo para transformar a ideia em empreendimento veio após sua participação em eventos especializados em São Paulo, onde pesquisadores da área validaram o potencial da proposta.

Um modelo de negócios inclusivo e diversificado

Conciliando as aulas na rede pública com a gestão do NecrotourRJ durante os fins de semana e feriados, Samantha estruturou uma operação que equilibra impacto social, acessibilidade e sustentabilidade financeira.

Para democratizar o acesso ao patrimônio histórico, o projeto oferece passeios coletivos com contribuição solidária. Há um valor sugerido para a experiência, mas a ausência de recursos não impede ninguém de participar. Além disso, o projeto desenvolve passeios patrocinados por parceiros e cemitérios privados — como uma edição recente voltada gratuitamente para crianças no Cemitério da Penitência.

Para o público que busca maior exclusividade e aprofundamento, a empresa oferece roteiros privativos de três horas. A experiência custa R$ 250 para até dois participantes, com taxa adicional de R$ 50 por pessoa em grupos de até 12 visitantes.

Curadoria de temas, público feminino e o braço ‘Histórias Macabras’

A capacidade de escutar o público e identificar nichos de interesse tem sido o grande trunfo do NecrotourRJ. Os roteiros passam por espaços emblemáticos como o São Francisco Xavier, o São João Batista e o da Penitência. Entre os temas de maior apelo estão as visitas noturnas e os circuitos focados em crimes reais históricos.

Curiosamente, cerca de 60% a 70% do público que busca o roteiro de crimes é composto por mulheres, atração motivada pelo debate consciente e histórico em torno de casos antigos de feminicídio e do papel da mulher na sociedade ao longo dos séculos. O alcance da iniciativa impressiona: o projeto já reuniu 120 participantes em uma única caminhada noturna no Cemitério da Penitência e mais de 100 pessoas no São João Batista.

O sucesso da proposta permitiu ainda a criação de um braço de expansão fora do ambiente funerário: o Histórias Macabras, voltado para o turismo urbano pelo centro da cidade, abordando episódios e personagens marcantes como Madame Satã e a Revolta da Vacina.

Superando preconceitos para construir o futuro

Empreender em um segmento cercado por estigmas sociais exige coragem. Samantha enfrenta constantes críticas nas redes sociais de pessoas que ainda mantêm uma visão limitada sobre a morte. A empresária reforça que atua como guia de turismo devidamente credenciada e que todas as atividades são autorizadas previamente pelas administrações dos locais. Para ela, o propósito do projeto supera qualquer tabu:

“O que eu menos falo ali é de morte. Eu falo de vida. A cidade dos mortos é uma representação da cidade dos vivos.”

De olho no futuro, o NecrotourRJ busca patrocinadores corporativos para estruturar novos formatos e rotas. Entre as novidades anunciadas estão uma visita à Ilha do Sol e o lançamento do projeto “Petrópolis Assombrado”, que unirá a visita cemiterial pela manhã a um roteiro de lendas urbanas na região serrana à tarde.

Ao provar que o patrimônio histórico pode ser resgatado com respeito, afeto e viabilidade econômica, Samantha Lobo consolida-se como um exemplo inspirador do empreendedorismo feminino brasileiro: aquele que transforma a sensibilidade em conhecimento, quebra barreiras culturais e prova que a memória é o maior ativo que uma cidade pode ter.

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