A trajetória de Giovana Bazoni acompanha o roteiro de resiliência de tantas mulheres brasileiras: mãe aos 17 anos, ela moldou sua vida profissional na dinâmica exaustiva do comércio varejista, atuando como vendedora em um shopping na Grande Vitória. O rompimento forçado com a carteira assinada veio em 2020, em meio aos cortes estruturais provocados pela pandemia de Covid-19. Sem renda, Giovana buscou abrigo nas memórias afetivas das avós e resgatou uma antiga paixão pelo trabalho manual, confeccionando máscaras de tecido.
O aperfeiçoamento na costura reta, contudo, ganhou um propósito político e comercial definitivo quando uma amiga e a filha relataram sofrer com alergias severas causadas pelos componentes sintéticos dos absorventes descartáveis tradicionais. Ao perceber a escassez de alternativas saudáveis e ecológicas no mercado capixaba, a artesã vislumbrou a oportunidade de criar a Chão de Casa, marca voltada para a produção de absorventes reutilizáveis de pano.
Uma gestação de tecidos contra o passivo ambiental
O desenvolvimento do produto exigiu o rigor científico de uma pesquisa de nicho. Foram nove meses de testes — período que Giovana qualifica metaforicamente como uma nova gestação — dedicados a mapear a absorção, a respirabilidade e a impermeabilidade de diferentes tramas têxteis. Como o mercado de produtos ecológicos menstruais ainda engatinhava em dados técnicos acessíveis, a artesã desenhou, por tentativa e erro, uma modelagem 100% confiável, anatômica e lavável.

A motivação do negócio também carrega um forte componente ecológico. O varejo tradicional de higiene íntima se ancora em uma lógica de descarte linear altamente poluente.
“O primeiro absorvente descartável produzido pela indústria na história da humanidade ainda está em algum aterro sanitário hoje, já que o plástico utilizado em sua composição demanda entre 400 e 500 anos para se decompor”, alerta a fundadora.
A educação menstrual como estratégia de mercado
A consolidação da Chão de Casa encontrou uma barreira cultural imediata: o asco e o tabu que cercam o sangue menstrual. Para furar o bloqueio da desinformação, Giovana percebeu que seu papel deveria ir além de operar a máquina de costura nos fundos de sua residência. Ela obteve uma certificação formal em educação menstrual, qualificando-se para ministrar palestras didáticas em instituições de ensino e coletivos comunitários.
A estratégia pedagógica refinou o posicionamento da marca. Ao naturalizar os processos biológicos e apresentar a menstruação sob uma perspectiva política e de autoconhecimento, a artesã desarma a resistência do público consumidor. O portfólio da microempresa foi desenhado para ser inclusivo, oferecendo peças que variam de R$ 25 a R$ 40, divididas em tamanhos que atendem desde a menarca (a primeira menstruação da adolescência) até fluxos severos e kits específicos para o pós-parto.
Toda a produção mantém uma durabilidade estimada de quatro anos por peça e acompanha uma cartilha educativa detalhada sobre higienização correta e manutenção do tecido.
Diversidade e a construção de uma rede de apoio feminina
Operando em feiras de economia criativa, redes sociais e canais digitais, a Chão de Casa adota uma política rígida de fortalecimento de cadeia: o direcionamento de seus custos operacionais prioriza, sempre que possível, o fornecimento de serviços de outras mulheres. Desde o design da identidade visual até a logística de apoio, o negócio funciona como um elo de uma corrente de empreendedorismo feminino local.
O ecossistema da marca também se destaca pelo alinhamento com os debates contemporâneos de diversidade de gênero. O posicionamento de comunicação da Chão de Casa remove o viés puramente biológico de seus produtos, pautando que a experiência da menstruação atravessa corpos de homens trans e pessoas não binárias.
Para Giovana, a transição do consumo de plástico para o pano não exige uma romantização do ciclo menstrual — que frequentemente envolve dores e desconfortos —, mas sim a pacificação da relação com o próprio corpo por meio do acesso à informação. A vendedora que antes operava sob as metas dos lojistas de shopping agora dita o ritmo de uma operação que costura saúde pública, ecologia e autonomia financeira.








